Segundo Plano

[Filme] All About Lily Chou-Chou

Dirigido por Shunji Iwai (que também dirigiu o ótimo Hana & Alice e um dos segmentos de New York I Love You) em 2001, Riri Shushu no Subete (título original de All About Lily Chou-Chou) nos apresenta um jovem chamado Yuichi Hasumi, estudante colegial cuja vida escolar é um verdadeiro inferno: vítima de bullying e humilhações constantes por seus colegas, tornou-se um garoto extremamente tímido e reservado, cujo única válvula de escape é sua admiração pela cantora Lily Chou-Chou. Ele mantém um grupo de discussão na internet em sua homenagem, onde posta diversas curiosidades sobre ela (como o fato de que Lily nasceu exatamente no mesmo dia e minuto em que John Lennon foi assassinado por Mark David Chapman) e afirma que sua música possui um “éter” que encanta os ouvintes, fazendo com que se apaixonem instantaneamente por sua voz.

Também é apresentada a história do jovem Shusuke Hoshino, amigo de infância de Yuichi, de quem acabou se afastando devido a tragédias pessoais. Hoshino era o melhor estudante do colégio, mas também era vítima de bullying pelos outros alunos. Durante uma viagem, Hoshino sofreu um acidente que não só quase o matou, mas também mudou completamente sua vida; após o acidente, somado aos seus problemas familiares e pessoais, Hoshino deixou de ser um garoto simpático e amigável e passou a ser manipulador, frio e perigoso, e acaba por se tornar um dos maiores bullies de seu colégio.

Lily Chou-Chou não segue uma narrativa linear; o filme inicia in medias res, onde determinadas situações são apresentadas. Após isso, a narrativa segue a partir do início, mostrando como chegou-se àquela situação, até voltar ao presente. Tecnicamente falando, Lily Chou-Chou exibe sua beleza com maestria; o cenário, a direção de arte e a fotografia, extremamente bem construídos, transmitem de forma assustadoramente real a solidão e a timidez dos personagens. As cenas no campo de arroz são um exemplo da belíssima fotografia do filme, que além de metafóricas e melancólicas, reforçam mais ainda seu excelente visual. Além disso, Shunji Iwai foi o primeiro diretor japonês a utilizar a câmera digital “24 progressive“, utilizada para a filmagem em 24p (formato de vídeo que opera em 24 frames por segundo), na época uma novidade tecnológica recentíssima. A trilha sonora, cantada pela artista fictícia Lily Chou-Chou, interpretada pela ótima cantora Salyu, mostra exatamente porque os personagens da trama são tão encantados por ela; sua música, um Dream Pop melancólico e agridoce, somado ao vocal etéreo que remete a cantoras como Björk, formam um resultado lindo e surpreendente.

Vale também lembrar um ponto bastante interessante no filme: os protagonistas discutem sobre Lily Chou-Chou em um fórum, cujas postagens surgem como frases no meio do filme, assim como os nicknames de quem está postando as mensagens. Alguns deles ficam bastante explícitos no filme, enquanto a identidade de outros nunca é revelada. Esses nicknames são apenas uma das muitas coisas que o diretor deixou em aberto para livre intepretação, o que inclui, principalmente, o que ele quis transmitir com o filme. Porém, Lily Chou-Chou não é um filme para todos. É uma obra bastante artística, sua narrativa pouco linear pode confundir os mais desatentos, e algumas cenas são muito violentas, psicologicamente falando.

Lily Chou-Chou é uma obra realmente interessante do renomado e respeitável cinema japonês. Uma película dramática, inteligente, experimental e artística, difícil de digerir, mas cujo resultado final é surpreendente. À primeira vista pode parecer meio confuso, além de ser um filme muito negativo em certos quesitos e passar mensagens sutis e brutais, com seus jovens protagonistas tão humanos e sofridos. Porém, após ser digerido, passa a ser uma obra apreciável e reflexiva, de uma sensibilidade única e valiosa.

AVALIAÇÃO:

1 comentário

  1. Edo-san
    21 de agosto de 2012

    Muito interessante, como a maioria das suas recomendações. Já estou catando pra assistir. E viva o Pirate Bay, hehe.

Comentários

Postagens recentes

Twitter