Segundo Plano

[Filme] A Bay of Blood

Mario Bava, mais que um diretor, era um verdadeiro artesão do cinema. Em um época em que a tecnologia digital ainda não existia o diretor criava efeitos especais simples e engenhosos para seus filmes, o que lhe rendeu o título de mestre do terror italiano. A arte do terror ou, no seu caso, a capacidade quase artesanal de transformar o terror em arte, foi logo reconhecida pela pela renomada revista cinematográfica Cahiers du cinema, atribuindo-lhe, logo após seu estréia na direção com o filme La Maschera de Demonio (A Máscara de Satã no Brasil), o título de auteur em 1961.


Bava compreendia muito bem a verdadeira natureza da dialética produção-consumo, e após dirigir os principais títulos que o consagraram (como Diabolik e Black Sabbath, que inspirou o nome da banda de Ozzy Osbourne e Tony Iommi), o diretor chegou a conclusão que seu cinema era um retrocesso. Como solução decidiu dirigir um filme diferente de todos os outros que já havia feito. Um filme extremo, violento, carregado de efeitos brutais e sugestivos. Decidiu então filmar e fotografar a natureza crua do delito, tendo como ponto central o homicídio como seu representante e os seres humanos apenas como complemento. Com A Bay of Blood (Banho de Sangue em português) Bava deu origem a um dos gênero que tomou conta do terror nos anos 80 e se propaga até hoje: o slasher movie.


Em A Bay of Blood a trama é pouco relevante para idéia do filme em si: o pretexto é a ganância humana desencadeada pelo desejo de herdar as terras de uma velha condessa que logo é assassinada. Sua residência em um belíssima baía se torna então o cenário de vários crimes brutais, complexos e visualmente atraentes.

Formalmente o filme é dominado por mudanças focais extraordinárias, ampla utilização do zoom, uma excelente profundidade de campo e iluminação natural, predominando uma atmosfera crepuscular. Também é de se ressaltar o nível das interpretações que supera o nível do gênero. Bava instaurou uma ótima relação com o elenco, fato que dá mais credibilidade e intensidade a seus atos homicidas.


Outro elemento importante é o uso descontextualisado da trilha sorna. o diretor frequentemente contrasta a força das imagens com músicas suaves e reconfortantes (pratica que posteriormente seria adotada por outros diretores como Quentin Tarantino), provocando uma sensação de estranheza que é a perfeita representação da ironia de Bava, uma ironia corrosiva que se mostra impiedosa com o surpreendente e insano final que justifica a posição do diretor em relação ao assunto tratado no filme.


Jason Voorhees e Michael Myers jamais teriam existido sem A Bay of Blood, copiado sem piedade por Sean Cunningham em sua série Friday the 13th. O filme também inspirou cenas de grandes mestre do terror e suspense como clássico Suspiria, de Dario Argento. Muitos consideram A Bay of Blood o melhor filme de Mario Bava, e mesmo o diretor que não costumava elogiar os próprios filmes se dizia muito orgulhoso por tê-lo dirigido. Sem perder sua elegância estilística ou se render ao grotesco, o filme de Bava é ideal para quem procura um filme repleto de sangue com qualidade técnica e artística.


AVALIAÇÃO:


ATENÇÃO: O filme que analisamos hoje possui dezenas – sem exagero – de títulos alternativos, mesmo em seu próprio país de origem. Só nos Estados Unidos, já foi lançado como Carnage, Twitch of the Death Nerve (nome mais conhecido por lá), A Bay of Blood (nosso favorito, e também o título internacional do filme, que pertence à versão sem cortes e censura), New House on the Left e Last House on the Left – Part II (o mais absurdo de todos, considerando que este filme não é sequência do filme de Wes Craven e foi lançado um ano antes). No Reino Unido, é conhecido como Bloodbath. No Brasil, o filme já ganhou nomes como Banho de Sangue, A Mansão da Morte, e O Sexo na Sua Forma Mais Violenta (?!). Na Itália, o rascunho da pré-produção se chamava Odore di Carne, mas durante a produção foi alterado para Cosi imparano a fare i cattivi, em seguida mudado para Reazione a catena. Após o fim da produção, o nome foi anunciado como Antefatto, mas quando finalmente foi lançado, ganhou o título de Ecologia del delitto. Porém, os lançamentos em vídeo por lá contém o nome Reazione a catena. Escolhemos A Bay of Blood por ser o título internacional do filme, para melhor compreensão e leitura, mas continua sendo impressionante como poderíamos falar do filme utilizando seus nomes alternativos em cada parágrafo diferente.

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