Segundo Plano

[Filme] Copie Conforme

Abbas Kiarostami, conhecido por seu cinema intensamente poético, atravessou pela primeira vez as ásperas fronteiras de seu país natal para fazer um filme em solo italiano, mais precisamente na Toscana. Berço do renascimento e uma eterno quadro de beleza natural graças a suas paisagens bucólicas, essa terra ensolarada e profundamente artística foi a inspiração para Copie Conforme (Cópia Fiel em português), filme no qual dois intelectuais desconhecidos travam uma discussão sobre a originalidade na arte e na vida, o que resultará em um confronto dialético, perigosamente situado entre a realidade e a ficção.

O filme do diretor iraniano ironicamente parece brincar com o título: uma cópia de um bom filme. Na trama, o escritor inglês James Miller (o barítono William Shimell), viaja pra a Itália para promover seu livro Cópia Fiel (uma obra filosófica que defende a tese que uma boa cópia pode ser melhor que o original e que a própria arte é a reconstrução do real), e lá conhece Elle (Juliette Binoche), uma sedutora galerista francesa que há muitos anos vive na Toscana. Os dois então passam algum tempo juntos, passeando pelas paisagens de cartão postal da pequena cidade e discutindo sobre a tese proposta no livro.


Os dois protagonistas não se conhecem, mas através de uma série de circunstâncias não convencionais, agradáveis passeios e diálogos que alternam uma reflexão superficial pseudo filosófica, começam a simular uma verdadeira realação entre marido e mulher. Os jogos, a cumplicidade, a atenção recíproca que podemos encontrar em qualquer casal feliz depois de 15 anos de casamento, acabam inevitavelmente desaparecendo, dando lugar a uma série de tensões internas. É o que parece nos querer dizer o diretor, que investiga a relação a dois, ou melhor, a procura de Elle por uma relação que nunca teve, mas sempre quis ter. E por que não agora, mesmo que por alguns instantes, com um perfeito desconhecido? Binoche dá vida a uma mulher sozinha, com um filho opressor, que não pode conceder-se nem mesmo ao direito de conhecer alguém para aliviar sua solidão. Desta forma, os dois protagonistas brincam de marido e mulher, chegando até mesmo a discutir como tais.


A constante referência no curso da narrativa a exemplos de “originais e cópias” e a própria relação que se estabelece entre os dois, que a certo ponto não se sabe precisar se é autêntica ou cópia de algo precedente, acaba recaindo em um clássico romance de casais, ou seja, não a história de duas pessoas que se conhecem e devem superar os obstáculos para ficarem juntas, mas de um casal formado que deve superar os obstáculos para se reencontrarem na relação (nada muito original), caracterítica que levou o filme a ser comparado com um clássico de Roberto Rossellini, Viaggio in Italia (que se passa na Costa Amalfitana, não na Toscana), estrelado por Ingrid Bergman.

Mesmo que a exuberante Juliette Binoche consiga demonstrar seu enorme potencial dramático, o roteiro de Kiarostami parece ficar aquém de seu incontestável talento. A frieza da fotografia contribui com o drama, mas desvaloriza a paisagem toscana, que de qualquer forma permanece deslumbrante. Mesmo assim o filme é forte em personalidade e estilo, mas não convence no aspecto emotivo e filosófico, podendo decepcionar aqueles que esperam do diretor iraniano aquele cinema tão autêntico e essencialmente poético.

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