Segundo Plano

[Filme] Sanxia haoren

O jovem diretor chinês Jia Zhangke é hoje um dos nomes mais importantes e respeitados do novo cinema asiático, em atividade desde 1997, ano de estreia de seu primeiro longa metragem bressoniano Xiao Wu. Com Sanxia haoren (Still Life em inglês e Em Busca da Vida em português), o cineasta conseguiu, enfim, o reconhecimento internacional. Em concurso no Festival de Veneza em 2006, muitos o esnobaram e as exibições do filme ficaram com o horário de menos prestígio, às vinte e três horas. Mas felizmente não pelos jurados, que sabiamente o premiaram com o Leão de Ouro e Sanxia haoren, até então pouco comentado, se tornou a grande surpresa do festival.


Quinto longa metragem no diretor, Sanxia haoren perpetua mais uma vez o tema central de seu trabalho: as mudanças da sociedade chinesa contemporânea e a forma com que as grandes mudanças econômicas introduzidas pelo regime se refletem na vida de milhões de pessoas. Enquanto os diretores da assim chamada “Quinta Geração” se transformaram em artistas do regime, com a intenção de perpetuar a  celebração das tradições imperiais, como o cinema de Zhang Yimou, ou então silenciados, como o cineasta Kaige Chen, Jia Zhangke com seu olhar simples e claro, traçou seu caminho através das malhas da censura. Um olhar apaixonado e afiado, que opta por mostrar a vida privada de seus personagens, remetendo-as às condições de vida de uma parte de uma parte significativa da humanidade.


Sanxia haoren não explica nada, mas tenta sugerir, com um estilo que deve muito a Hou Hsiao-hsien e Tsai Ming Liang, que por trás das luzes brilhantes do progresso das megalópoles chinesas existe uma política cruel em relação aos trabalhadores explorados e sem proteção estatal ou judicial, enquanto o concreto e o lucro desmedido avança cada vez mais rápido. Os dois protagonistas do filme são Han Sanming (Sanming Han), um operário que chega a cidade de Fenjie, para tentar reencontrar a mulher, a qual havia esposado por meio de um casamento arranjado dezeseis anos antes e Shen Hong (Tao Zhao), uma enfermeira a procura do marido, que trabalha na construção da barragem e não dá notícias há dois anos, para pedir o divórcio. Duas histórias que tomam rumos diferentes e se ligam uma a outra graças a um acontecimento surreal. Mas procurar uma pessoa em Fenjie não é uma tarefa simples: a cidade foi completamente evacuada e agora se encontra submersa nas águas de um lago artificial criado para a construção da imponente represa das Três Gargantas, grande sonho de Mao Tse-tung.


As cidades vizinhas também estão prestes a serem evacuadas e demolidas, e logo as águas do Yangtze subirão e elas também se transformarão em novas Atlântidas. A burocracia não ajuda os protagonistas, que só podem se valer da generosidade das outras pessoas, resignando-se a uma longa e trabalhosa procura. A história individual, pessoal e sentimental dos personagens se torna então uma reflexão muito lúcida sobre a paradoxal transição entre comunismo e capitalismo no país. O território muda velozmente no rastro do progresso desenfreado e a memória da história e da geografia dos lugares permanece apenas estampada nas notas de Yuans, a moeda nacional. De um lado da nota a foto de Mao, do outro as Três Gargantas e o Yangtze, como eram mas não são mais.


Desta forma, a iconografia é constantemente invertida, através do uso da grande figura da identidade da nação, Mao Tse-tung: a modernização do país e as grandes obras, necessárias ao sistema, apenas são possíveis traindo os ideais da Revolução Cultural e graças ao dinheiro do mercado monetário. Jia Zhangke desmarcara silenciosamente o objetivo das autoridades governamentais, as quais para cumprir os prazos de uma obra se vêem obrigadas a destruir outras obras modernas, construídas a pouco tempo, valendo-se paradoxalmente do mais antigo e hipoteticamente antiquado instrumento do homem: suas próprias mãos. A classe trabalhadora, longe de construir a utopia comunista da igualdade, ajuda a construir o protótipo de um capitalismo que precisa gastar cada vez mais dinheiro para sobreviver.


Um capitalismo onde os operários, no final, se contentam em deixar o trabalho na demolição para se arriscarem ainda mais em minas de carvão para ganhar pouco mais a garantir ao país o grande salto para o futuro, demolindo casas para substituí-las por grandes arranha-céus, fazendo com que vilarejos milenares simplesmente desapareçam, submersos na água, enquanto a paisagem se transforma drasticamente e milhões de pessoas são obrigadas a reconstruir suas vidas e suas próprias existências. À pobreza da população se contrapõe o esplendor de uma ponte futurista, arco dourado na escuridão do desespero: as luzes que iluminam o vale não trazem esperança, mas selam a impossibilidade de se perpetuar a simplicidade e as tradições de tempos passados.


O único consolo, parece sugerir o diretor, vem através dos pequenos objetos quotidianos que os personagens trocam durante o filme e que classificam os quatro capítulos nos quais é dividido: Cigarros, Álcool, Chá, Doces. Objetos que estabelecem uma ligação entre os personagens e são o sinal de uma sociedade instintiva e generosa: no final, graças aos cigarros, se manifesta um último resquício de humanidade e uma dimensão coletiva, ainda que simples, mas sincera.


Do ponto de vista visual, o trabalho de Zhangke é simplesmente extraordinário. O filme tem um ritmo lento e meditativo, a câmera se move continuamente em linhas horizontais através de suaves travellings alternados com deslumbrantes panorâmicas que acompanham os personagens, os precedem e às vezes os seguem através de uma série de planos sequência capazes de contar através de imagens, a história individual de dois protagonistas no coração de uma tragédia coletiva. O diretor frequentemente dá preferencia aos long shots, mostrando a convivência dos protagonistas com uma cidade em ruínas e todas as suas ameaças reais e metafóricas. O pesadelo da modernidade (insana e indefinida) é realmente amedrontador: emblemática é a cena na qual Han Sanming finalmente reencontra a mulher, e enquanto conversam, em um edifício em demolição, através de um enorme buraco na parede é possível acompanhar um prédio inteiro desabar.


Zhangke , também roteirista de Sanxia haoren, é capaz de confrontar duas condições socio-culturais, operária e burguesa, reduzindo os diálogos ao mínimo, sustentado por uma mistura ideal entre a incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni e o neorrealismo de Roberto Rossellini (os atores caminham sobre escombros reais, como em Paisà, de 1946), com doses inesperadas de surrealismo e um final de significativa beleza. Uma China distante do estereótipo de progresso que todos imaginam colocada de frente às próprias contradições. Natureza morta em seu sentido literal.

 AVALIAÇÃO:

2 comentários

  1. [Filme] Little Red Flowers | Moonflux
    18 de novembro de 2012

    [...] em filmes como Shijie (O Mundo, de 2004) e do belíssimo Sanxia Haoren (Em Busca da Vida, de 2006, já analisado no blog) e Xiaoshuai é conhecido por seu trabalho retratando os jovens chineses e a juventude de forma [...]

  2. [Filme] Proshchanie | Moonflux
    1 de julho de 2013

    [...] sempre universal e nada datada, também foi abordada por diretores como Jia Zhangke, em Sanxia Haoren (Em Busca da Vida), em 2006, e Elia Kazan, em Wild River (Rio Violento), de [...]

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